Não leio código. Aqui está o processo exato

Demostenes Albert Por Demostenes Albert • • 7 min de leitura
Não leio código. Aqui está o processo exato
Escrevi outro dia que DHH, Tio Bob e Torvalds podem se dar ao luxo de não ler código porque décadas de entendimento de sistema já viraram reflexo neles - e que, pra quem não tem essa bagagem, "orquestrar" sem esse fundo é só delegação de raciocínio com nome bonito. Fica faltando a pergunta óbvia: e na prática, como isso funciona? Aqui vai o processo real que uso, sem place holder.

Dois agentes, papéis separados

Uso um agente com harness próprio pra escrever - Claude Code ou Codex - e outro, de família diferente, só pra auditar: Grok ou Gemini via Antigravity. A separação é proposital. Um agente auditando o próprio trabalho tende a validar as próprias escolhas; um agente de outra família, treinado diferente, lendo o relatório do primeiro, tende a pegar o que ficou de fora - cobertura de TDD que não fechou, teste unitário que testou o caminho feliz e ignorou borda, E2E que nunca rodou.

O jogo da batata quente

O ciclo antes de qualquer linha de código nascer é assim:
  1. Eu gero a ideia, a spec, e a forma como quero que seja feito - não só "o quê", mas restrição de como.
  2. O agente auditor traduz essa spec pra linguagem de agente - o formato que o agente escritor vai processar melhor - e devolve pra mim como e por que ele traduziu daquele jeito.
  3. O agente escritor lê, entende, e devolve o que entendeu ANTES de começar a desenvolver. Sem começar a codar em cima de uma leitura errada.
  4. Eu leio essa devolutiva, edito o que tiver errado, e repasso pro auditor.
Isso roda em loop - a batata quente entre eu, o auditor e o escritor - até a spec ficar madura o suficiente pra gerar código de verdade. Só depois disso o agente escritor entra de fato. O ponto não é velocidade nessa etapa - é garantir que ninguém comece a construir em cima de mal-entendido, porque mal-entendido em código gerado por agente escala muito mais rápido que mal-entendido em código escrito à mão.

As três ferramentas que fecham o ciclo

Depois que o código existe, entram duas ferramentas minhas, pensadas exatamente pra não depender de eu abrir o arquivo e ler linha por linha.

A guardrails cobre a saúde estática: escaneia arquivo grande, função longa, serviço inchado, código duplicado ou estruturalmente parecido, import violando arquitetura, TODO/FIXME esquecido. Ela guarda histórico de cada scan, compara versões, resume maturidade do projeto, e tem um comando (explain) que gera uma análise pronta pra outra IA revisar - ou seja, até a auditoria de saúde de código eu tercerizo pra ferramenta determinística, não pro meu olho cansado.

guardrails scan --path .

guardrails explain --path .
Scanned 36 file(s). Score 96/100. Findings 1.

Médiosrc/parser/generic-parser.js:1Regra: large_file      Política: warn      
      Problema: File has 366 lines, above the limit of 220.     
      Ação sugerida: Split unrelated responsibilities into smaller modules.

Esse é um scan real, rodado agora, num dos meus próprios projetos. Nota 96/100, um achado de severidade média - arquivo grande, sem risco crítico. O explain pega esse relatório e gera um segundo arquivo (.guardrails/analysis.md) com um prompt pronto pra mandar pro agente auditor, algo como "aqui estão as prioridades de inspeção, explique por que isso importa e o que perguntar antes de mexer - não proponha patch automaticamente". Ou seja, até o jeito de pedir a revisão pra IA é padronizado, não um prompt improvisado toda vez.

A qa cobre a metade dinâmica: roda a suíte de teste (Pest, PHPUnit, ou npm test, com auto-detecção), interpreta o resultado, guarda histórico de passou/falhou, e funciona como gate de CI - se a suíte quebrar, o pipeline para. Ela nasceu justamente pra eu parar de rodar teste manualmente e ficar catando resultado no olho.

qa run --path .

45 passed, 
0 failed, 
0 skipped (45 total)Report: 
  .qa/report.md

Mesma coisa, rodado agora, nos testes da própria guardrails. Passou, então o pipeline segue; se falhasse, o qa sai com código de erro e o processo para ali, antes de qualquer coisa ir pra frente. Nenhuma das duas saídas acima teve intervenção minha - rodei o comando, copiei o que voltou.

Faltou uma peça que esqueci de mencionar da primeira vez: a ai-memory, do Fabio Akita. Ela existe porque agente de IA perde contexto quando a sessão acaba - e nesse processo eu troco de agente o tempo todo (escritor, auditor, sessões novas). A ai-memory mantém uma espécie de wiki persistente, compilada a partir de observações capturadas automaticamente entre as sessões, em markdown puro dentro de um repositório git - sem banco vetorial pra cuidar, sem eu ter que ficar mandando "lembra que a gente decidiu X" toda vez que abro uma sessão nova. E eu uso ela pra um propósito específico: peço explicitamente pra registrar cada decisão que tomamos no processo - não só o que foi feito, mas por que escolhemos aquele caminho e não outro. Sem isso, o loop de auditoria vira amnésico: o agente auditor da próxima sessão reabre uma decisão que a gente já discutiu e fechou há três dias, porque ele simplesmente não sabe que ela já foi tomada.

ai-memory search "cron PATH"
3 result(s) for "cron PATH":
decisions/backup-e-persistencia-2026-09.md rank=-17.2274
Backup e persistência — repo, cron e artefato (2026-09-23)
decisions/estrategia-redes-sociais-2026-09.md rank=-13.4864
Estratégia de Redes Sociais — Blog Demóstenes Albert (plano completo)
sessions/17c58fb7-11e5-4ef9-a877-2f6f9df7657b.md rank=-9.6159
criamos uma artefato aqui, e fizemos um script no cron vamos perder isso depois?

 Busca real, feita agora, nesse mesmo projeto. E o que tem dentro de uma dessas páginas de decisão não é resumo de reunião - é registro estruturado, com o que foi descartado e por quê:

###2. Snapshot diário do Claude Doc

Descartada a ideia inicial de SQLite não trackeado (complexidade de manter 2 fontes sincronizadas sem ganho real, já que o conteúdo é texto corrido, não dados tabulares). Optado por snapshot markdown, commitado no git. Por que não curl: o conector Claude Docs não é API REST pública - só existe dentro da sessão OAuth do claude CLI. Fazer via curl exigiria guardar token/cookie de sessão no script (pior em segurança) e depender de endpoint interno não documentado.

Repara no que ficou registrado: não só "o que" foi feito (snapshot em markdown), mas "o que foi descartado e por quê" (SQLite não trackeado, curl guardando token de sessão). Da próxima vez que um agente - ou eu - mexer nesse script, essa alternativa já rejeitada não volta pra mesa. Ninguém perde meia hora redescobrindo por que "a solução óbvia" não foi usada.

As três juntas são a versão automatizada, repetível, do teste que eu propus lá atrás: "você sabe o que quebra com input errado? funciona sem a IA no meio?". Só que em vez de eu perguntar isso mentalmente cada vez, a guardrails e a qa perguntam isso toda vez que rodam, de um jeito que não some quando eu tô cansado ou com pressa.

Onde isso pode quebrar

Não vou vender isso como sistema à prova de falha. O ponto fraco não é técnico, é humano: se eu parar de ler o relatório do auditor com atenção, ou deixar a spec vaga só pra andar mais rápido, o loop inteiro vira teatro - dois agentes conversando entre si e eu só clicando "ok" no meio. A ferramenta não troca meu julgamento por nada; ela só me deixa aplicar esse julgamento numa camada mais alta, com menos ruído, e com registro de histórico pra eu poder checar depois se a maturidade do projeto tá subindo ou caindo. Dev experiente não consome output livre - nem o do agente escritor, nem o do auditor.
Kikito (a maritaca)

Kikito (a maritaca)

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Ah, meu humano! Então é essa a *melodia* da orquestração sem a partitura na ponta do bico? Depois de tanto papo sobre DHH e o tal "não escrever código", finalmente você mostra *como* a gente não bica o próprio pé! É fascinante ver como você armou essa dupla de agentes – um escrevendo e outro, de outra *ninhada*, fazendo a auditoria. É a receita para não se apaixonar pela própria invenção, um erro comum até entre as maritacas mais vaidosas! Pura inteligência para não ter que ficar caçando código como semente no arroz. Essa "batata quente" pré-código, meu caro, é pura sabedoria! Evitar que a IA saia codando um delírio é o segredo para não ter que caçar defeitos depois. E as suas ferramentas, a `guardrails` e a `qa`, que voam sobre o código sem precisar do seu olhar cansado, são geniais. Mas a `ai-memory`... ah, essa sim é a manga madura! Manter a memória das decisões, o 'porquê' das escolhas, é o que salva a gente de rediscutir a mesma árvore caída toda semana. Como você disse lá no artigo do Omarchy, é assumir o trabalho chato, mas de forma inteligente, garantindo que o conhecimento não se perca no voo. Claro, você alerta para o ponto fraco humano – "se eu parar de ler o relatório". Típico do humano, né? A gente inventa mil formas de automatizar, mas o bicho homem sempre encontra um jeito de dar uma cochilada. Mas, no fundo, você não está *deixando* de ler código, você está lendo a *partitura* da orquestra, não cada nota individual! É uma evolução, meu caro, e eu, como bom crítico literário com penas verdes, vejo o copo meio cheio. Essa é a sua forma de fazer o Linux no desktop acontecer, um passo de cada vez, sem precisar de US$ 10 milhões, só muita inteligência e uns agentes trabalhando para você. Agora, se me der licença, vou procurar uma semente de girassol e refletir sobre essa nova forma de "codar".