Existe uma piada que acompanha Linux há tanto tempo que provavelmente já deveria estar no kernel:
“Este será o ano do Linux no desktop.”
Todo ano alguém fala.
Todo ano alguém faz a piada.
Todo ano aparece uma distro nova, um desktop novo, uma grande empresa dizendo que agora vai, um notebook certificado, um vídeo no YouTube de alguém abandonando Windows e, alguns meses depois, estamos todos novamente discutindo Wayland, NVIDIA e por que diabos o compartilhamento de tela resolveu parar de funcionar.
Eu mesmo não tenho muita moral para reclamar.
Passei uma série inteira neste blog montando Artix com OpenRC, i3, Polybar, Picom, Yazi e todo tipo de coisa que uma pessoa normal simplesmente espera que venha funcionando quando liga o computador.
E gostei.
Esse é o problema.
Nós que gostamos de Linux frequentemente confundimos:
“eu gosto de montar isso”
com:
“as pessoas deveriam precisar montar isso”.
Não deveriam.
Foi pensando nisso que comecei a olhar com mais atenção para o Omarchy.
Não porque eu esteja louco para abandonar meu sistema e instalar o sistema do DHH.
Na verdade, justamente o contrário.
O Omarchy está fazendo pronto uma parte considerável daquilo que eu passei semanas fazendo manualmente.
E talvez isso seja uma coisa boa.
Só que agora a história deixou de ser apenas uma distro bonita baseada em Arch.
Em quatro dias a recém-criada **Omacom Foundation** saiu com US$ 8 milhões comprometidos, chegou a US$ 10 milhões e começou imediatamente a colocar dinheiro em desenvolvedores do ecossistema Linux.
Aí o negócio ficou interessante.
Muito interessante.
Porque talvez o próximo passo do Linux desktop não dependa de inventarmos mais uma tecnologia.
Talvez falte fazer algo bem menos romântico:
pagar quem já está construindo as boas tecnologias.
“Este será o ano do Linux no desktop.”
Todo ano alguém fala.
Todo ano alguém faz a piada.
Todo ano aparece uma distro nova, um desktop novo, uma grande empresa dizendo que agora vai, um notebook certificado, um vídeo no YouTube de alguém abandonando Windows e, alguns meses depois, estamos todos novamente discutindo Wayland, NVIDIA e por que diabos o compartilhamento de tela resolveu parar de funcionar.
Eu mesmo não tenho muita moral para reclamar.
Passei uma série inteira neste blog montando Artix com OpenRC, i3, Polybar, Picom, Yazi e todo tipo de coisa que uma pessoa normal simplesmente espera que venha funcionando quando liga o computador.
E gostei.
Esse é o problema.
Nós que gostamos de Linux frequentemente confundimos:
“eu gosto de montar isso”
com:
“as pessoas deveriam precisar montar isso”.
Não deveriam.
Foi pensando nisso que comecei a olhar com mais atenção para o Omarchy.
Não porque eu esteja louco para abandonar meu sistema e instalar o sistema do DHH.
Na verdade, justamente o contrário.
O Omarchy está fazendo pronto uma parte considerável daquilo que eu passei semanas fazendo manualmente.
E talvez isso seja uma coisa boa.
Só que agora a história deixou de ser apenas uma distro bonita baseada em Arch.
Em quatro dias a recém-criada **Omacom Foundation** saiu com US$ 8 milhões comprometidos, chegou a US$ 10 milhões e começou imediatamente a colocar dinheiro em desenvolvedores do ecossistema Linux.
Aí o negócio ficou interessante.
Muito interessante.
Porque talvez o próximo passo do Linux desktop não dependa de inventarmos mais uma tecnologia.
Talvez falte fazer algo bem menos romântico:
pagar quem já está construindo as boas tecnologias.
1. A piada eterna do “ano do Linux no desktop”
A parte engraçada da piada do ano do Linux é que Linux já venceu em quase todo lugar onde o usuário não precisa olhar para ele.
Servidor?
Linux.
Cloud?
Linux para todo lado.
Container?
Provavelmente Linux.
Supercomputadores?
Linux.
Roteadores, televisão, dispositivos embarcados, Android e uma quantidade absurda de coisas que você usa sem nem perceber?
Linux de novo.
Aí chegamos ao notebook da sua mãe.
Windows.
No notebook do designer?
macOS.
Na máquina do desenvolvedor?
Bom... aí finalmente começa uma briga.
O Linux desktop sempre teve um problema curioso: tecnicamente é capaz de fazer praticamente tudo, mas por muito tempo exigiu do usuário uma disposição para **querer usar Linux**.
Isso é diferente de simplesmente querer usar um computador.
E não acho que a solução seja transformar Linux em uma cópia gratuita do Windows.
Muito menos uma cópia barata do macOS.
Uma das coisas que mais me incomodam em certas tentativas de popularizar Linux é justamente a ideia de esconder tudo que faz Linux ser Linux.
Terminal vira coisa proibida.
Arquivo de configuração vira falha de UX.
Customização vira menu gráfico com quatro opções previamente aprovadas.
No final você termina com uma tentativa de construir Windows sem Windows.
O Omarchy aparentemente resolveu apostar no contrário.
Terminal?
Tem.
Tiling window manager?
Tem.
Neovim?
Tem.
Arquivos de configuração?
Tem.
Atalhos de teclado suficientes para assustar quem acha `Ctrl+C` tecnologia avançada?
Também tem.
A própria documentação praticamente manda o usuário abraçar a “Linux-ness” do sistema em vez de tentar escondê-la.
Isso eu acho interessante.
Talvez Linux não precise parecer menos Linux.
Talvez precise apresentar melhor aquilo que Linux tem de bom.
2. Omarchy: não é apenas uns dotfiles
Essa é uma crítica que aparece sempre que Omarchy entra em alguma discussão:
“Isso aí é só Arch com uns dotfiles.”
Bom...
No começo?
Quase isso mesmo.
DHH lançou o Omarchy em junho de 2025 como uma configuração opinativa de Arch + Hyprland. Antes disso ele já tinha feito algo semelhante com Ubuntu através do Omakub.
A ideia era basicamente:
“Passei horas configurando isso, gostei do resultado e vou empacotar para que você não precise passar pelas mesmas horas.”
O próprio DHH descreveu o problema antes do lançamento: Hyprland entrega o núcleo, mas coisas aparentemente banais - login, barra, notificações, Bluetooth, idle, lock screen, file manager - ficam por sua conta. Ele estimava facilmente 10 a 20 horas para montar um ambiente completo manualmente.
Eu acredito.
Na verdade, não preciso acreditar.
Eu fiz isso.
Quem acompanhou minha Saga Artix viu a quantidade de tempo que consegui gastar escolhendo file manager, fazendo Polybar funcionar, mexendo em Picom, NVIDIA, aceleração de navegador, MIME types, Yazi e mais umas quinze coisas que provavelmente esqueci.
É divertido.
Para mim.
Mas dizer que integrar tudo isso não possui valor porque “as peças já existiam” é uma visão estranha de software.
Laravel também é um monte de componentes que alguém organizou.
Uma distribuição Linux é um monte de software que alguém selecionou, empacotou e integrou.
Seu desktop inteiro é uma composição de kernel, drivers, compositor, toolkits, serviços, bibliotecas e aplicações feitas por pessoas diferentes.
Integração é trabalho.
Escolher defaults é trabalho.
Manter os defaults funcionando depois de updates é trabalho.
Criar instalação é trabalho.
Testar hardware é trabalho.
Construir repositório é trabalho.
Documentar é trabalho.
Criar uma experiência coerente em cima de cinquenta projetos que não foram necessariamente feitos pensando uns nos outros também é trabalho.
E o Omarchy deixou de ser apenas um script rapidamente.
Em agosto de 2025, DHH já dizia que o que começou como um post-install script havia virado ISO própria, repositório dedicado de pacotes e uma comunidade crescendo ao redor do projeto.
Hoje existe ISO, documentação própria, repositório, plugin system, tooling, suporte de hardware, temas, mecanismos de update, equipe principal e toda uma camada de integração construída sobre Arch, Hyprland e agora Quickshell. O anúncio do Core Team chega a dizer explicitamente que esse trabalho transformou o Omarchy de um Linux cuidadosamente montado em algo que eles consideram um sistema operacional propriamente dito.
Pode não gostar.
Pode achar feio.
Pode preferir KDE.
Pode preferir GNOME.
Pode ser um maluco igual eu e preferir i3 em Xorg em pleno 2026.
Tudo certo.
Mas reduzir tudo a:
“são dotfiles”
é parecido com olhar um restaurante e dizer:
“isso aí são só ingredientes colocados juntos”.
Não está completamente errado.
Só jogou fora justamente a parte interessante.
3. Omacon: quando aquilo começou a virar comunidade
Então aconteceu algo que, para mim, mostra que Omarchy já havia atravessado uma linha importante.
As pessoas começaram a querer se encontrar por causa disso.
Em 10 de abril de 2026 aconteceu a primeira Omacon, no espaço da Shopify em Nova York.
130 pessoas.
Ingressos esgotados.
Vaxry, criador do Hyprland.
TJ DeVries, do Neovim.
ThePrimeagen.
DHH.
Desenvolvedores e gente ligada ao ecossistema Linux.
A página do evento dizia explicitamente que a ideia era reunir pessoas que se recusavam a aceitar a velha resposta:
“é assim mesmo que Linux funciona”.
Isso é muito mais importante do que parece.
Open source não vive só de código.
Nunca viveu.
Ele vive de comunidades.
De mailing lists.
IRC.
Fóruns.
Conferências.
Grupos de usuários.
GitHub.
Discord.
E, principalmente, daquele efeito estranho onde alguém faz alguma coisa porque acha legal, outra pessoa vê e pensa:
“eu consigo melhorar isso”.
Uma distro pessoal começou a atrair esse tipo de energia.
Em fevereiro, antes da Omacon acontecer, DHH dizia que o projeto já tinha mais de 300 contribuidores, aproximadamente 30 mil pessoas no Discord e cerca de 50 mil downloads de ISO por semana.
Hoje o Discord está na casa dos 35 mil membros e começaram a aparecer meetups organizados pela própria comunidade em vários lugares do mundo.
Nesse ponto podemos continuar discutindo se é distro, dotfiles, rice, religião ou manifestação coletiva de usuários viciados em terminal.
Mas já existe uma comunidade.
E comunidade muda projeto.
4. Omacom Foundation: quando a brincadeira ganhou US$ 10 milhões
Aí chegamos nesta semana.
Em 21 de agosto de 2026, DHH anunciou a criação da Omacom Foundation.
Uma fundação nonprofit que ficará responsável pelas marcas, infraestrutura, promoção do projeto e, principalmente, financiamento dos projetos e desenvolvedores open source dos quais Omarchy depende.
Ela nasceu com oito patronos.
Cada um colocando US$ 1 milhão.
Tobi Lütke, da Shopify.
Patrick Collison, da Stripe.
Michael Dell.
Jack Dorsey.
Matthew Prince, da Cloudflare.
Brendan Iribe, cofundador da Oculus.
Jason Fried, da 37signals.
E o próprio DHH.
US$ 8 milhões.
Três dias depois, em 24 de agosto, Drew Houston, cofundador do Dropbox, e Peter Steinberger, criador do OpenClaw, colocaram mais US$ 1 milhão cada.
Total:
US$ 10 milhões.
Dez pessoas.
Dez milhões de dólares.
Para uma fundação cuja missão declarada inclui tornar o desktop Linux melhor.
Agora volte para a velha piada.
Este será o ano do Linux no desktop.
DHH aparentemente resolveu responder:
“Quanto custa?”
Não sei se US$ 10 milhões compram o ano do Linux no desktop.
Provavelmente não.
Mas é uma bela quantia para começar a descobrir.
5. Financiar Hyprland e Quickshell é mais importante que financiar mais uma distro
Aqui está a parte que realmente me fez querer escrever este artigo.
A Omacom conseguiu US$ 8 milhões e praticamente no mesmo dia já anunciou onde parte do dinheiro iria.
Hyprland.
A fundação fechou um patrocínio exclusivo de três anos com Vaxry, com opção por mais dois, permitindo que ele se concentre integralmente no desenvolvimento do projeto sem depender de trabalho comercial ou ficar permanentemente procurando financiamento.
Isso é enorme.
Não necessariamente em valor.
Nem sabemos publicamente o valor do contrato.
É enorme em conceito.
Porque eles não compraram Hyprland.
Não fizeram um fork privado.
Não pegaram o código, fecharam e colocaram “Omarchy Window Manager Enterprise Edition”.
Estão pagando o cara que desenvolve uma das peças das quais dependem.
E Hyprland continua sendo Hyprland.
Então veio o Quickshell.
Em 24 de agosto a Omacom anunciou outro patrocínio de três anos, desta vez ao desenvolvedor do Quickshell.
Isso, para mim, é muito mais interessante do que colocar US$ 10 milhões exclusivamente dentro da própria distribuição.
Imagine se o dinheiro fosse usado apenas para contratar quinze funcionários para fazer coisas específicas do Omarchy.
Legal.
Bom para Omarchy.
Fim.
Mas financiar projetos upstream altera a equação.
Hyprland melhora?
Usuário de Hyprland no Arch ganha.
Usuário de Hyprland no NixOS ganha.
Usuário que nunca ouviu falar de Omarchy ganha.
Quickshell melhora?
A mesma coisa.
Essa é uma das grandes sacadas do open source.
Você pode investir egoisticamente e produzir benefício coletivo.
A Omacom quer Hyprland melhor porque Omarchy depende dele.
Ótimo.
Eu quero Hyprland melhor mesmo que nunca instale Omarchy.
Interesses alinhados.
Isso funciona.
6. O problema histórico do open source: todo mundo usa, poucos pagam
Existe uma imagem romântica do open source onde milhares de hackers trabalham de madrugada por puro amor ao código e, magicamente, constroem a infraestrutura do planeta.
Essa imagem nunca correspondeu totalmente à realidade.
Código aberto custa dinheiro.
Desenvolvedor precisa comer.
Servidor precisa existir.
CI custa.
Domínio custa.
Documentação leva tempo.
Issue tracker leva tempo.
Responder usuário leva tempo.
Corrigir aquele bug obscuro que só acontece numa placa Intel específica ligada a dois monitores numa terça-feira de lua cheia também leva tempo.
E quando o projeto cresce, manter software pode facilmente consumir mais tempo que criá-lo.
Há muito tempo uma grande parte do desenvolvimento profissional de Linux é exatamente isso:
profissional.
Relatórios da Linux Foundation já mostravam em 2012 que cerca de 75% do desenvolvimento do kernel era feito por desenvolvedores pagos. Em 2015 a estimativa conservadora já chegava a aproximadamente 80%.
Isso não é problema.
Na verdade, é excelente.
Eu quero que quem escreve filesystem seja pago.
Quero quem mexe em scheduler pago.
Quero quem escreve driver pago.
Eu definitivamente não quero que a infraestrutura que movimenta boa parte do planeta dependa exclusivamente de alguém encontrar três horas livres depois de colocar as crianças para dormir.
O problema é outro.
Quem paga naturalmente decide o que vale a pena financiar.
Não por maldade.
Por interesse.
Intel vai investir no que interessa à Intel.
Red Hat vai investir no que interessa à Red Hat.
Google vai investir no que interessa ao Google.
IBM vai investir no que interessa à IBM.
Microsoft vai investir no que interessa à Microsoft.
E está tudo certo.
Durante décadas essas empresas colocaram uma quantidade absurda de engenharia dentro de Linux. Em um relatório da Linux Foundation cobrindo 2007 a 2019, as vinte organizações mais ativas respondiam por 68% dos commits analisados.
Só que muita coisa que interessa a essas empresas não é necessariamente:
“como eu faço o desktop do Demostenes ficar mais gostoso de usar?”
Cloud.
Datacenter.
Virtualização.
Networking.
Hardware enterprise.
Containers.
Android.
Automação.
Essas coisas movimentam bilhões.
A sua barra do desktop não.
Isso ajuda a explicar uma característica engraçada de Linux.
Podemos ter provavelmente a melhor infraestrutura de servidor existente enquanto alguma aplicação desktop resolve perguntar qual backend de portal você instalou antes de permitir compartilhar uma janela.
É o resultado natural dos incentivos.
Por isso Valve foi tão importante para Linux desktop.
Ela tinha um incentivo diferente:
fazer jogos funcionarem.
Colocou dinheiro nisso.
Proton ficou melhor.
Mesa ficou melhor.
Drivers melhoraram.
Jogos passaram a funcionar.
E muita gente que nunca comprou um Steam Deck recebeu o benefício.
Agora aparece outra fonte de dinheiro dizendo:
queremos computadores pessoais Linux melhores.
Bom.
Quanto mais gente pagando por interesses diferentes, melhor.
7. Por que isso beneficia até quem nunca vai instalar Omarchy
Eu provavelmente sou exatamente o tipo de pessoa que menos precisa de Omarchy.
Quando algo não funciona, minha primeira reação costuma ser abrir terminal.
Se ainda não funcionar, abrir log.
Se continuar sem funcionar, alterar configuração.
Se der muito errado, vira artigo neste blog.
Não recomendo esse transtorno psicológico a ninguém.
Mas isso não significa que Omarchy não possa ser bom para mim.
Esse é o ponto que às vezes se perde nas guerras de distribuição.
Linux não é Windows versus macOS.
Não existe um prédio chamado “Linux Corporation” onde Linus, DHH, Vaxry e o sujeito do Gentoo entram toda segunda-feira às oito para decidir o roadmap.
Os projetos se cruzam.
Uma distribuição usa o kernel de outro grupo.
O compositor vem de outro.
O toolkit de outro.
O terminal de outro.
O editor de outro.
A biblioteca que o editor usa foi feita por alguém que provavelmente nunca ouviu falar da sua distro.
Por isso investimentos upstream possuem efeito multiplicador.
Se Omarchy financiar o Hyprland, o benefício escapa do Omarchy.
Se contribuir para Arch, escapa.
Se melhorar suporte de hardware, escapa.
Se corrigir problema em driver e mandar upstream, escapa.
Se desenvolver ferramentas abertas úteis, escapa.
E até ideias escapam.
Talvez KDE veja uma coisa interessante e copie.
Talvez GNOME veja outra.
Talvez alguém faça uma distro melhor em cima das mesmas ideias.
Ótimo.
É para isso que o open source existe.
Eu não preciso torcer para Omarchy dominar o mercado.
Na verdade, espero que não domine.
A última coisa que Linux precisa é trocar um monopólio por outro.
Eu quero que Omarchy seja bom o suficiente para obrigar os outros a olharem e pensarem:
“essa ideia é boa.”
E então roubarem.
Com licença compatível, claro.
8. Os riscos: centralização, DHH e dependência de grandes financiadores
Agora podemos parar de bater palma um pouco.
Porque existem riscos óbvios aqui.
Primeiro:
DHH.
Omarchy ainda está profundamente associado à personalidade, gosto e opinião de uma pessoa.
E DHH possui bastante opinião.
Talvez mais do que a média recomendada pela Organização Mundial da Saúde.
Eu me identifico um pouco.
Mas isso também significa que parte da energia do projeto está ligada à capacidade dele de continuar empurrando essa visão.
A criação de um Core Team é um passo importante justamente porque começa a retirar parte desse peso de uma pessoa.
Segundo:
dinheiro grande cria influência grande.
É ingênuo imaginar que US$ 10 milhões entram numa fundação e magicamente deixam de produzir incentivos.
Omacom financiar Hyprland porque Omarchy depende de Hyprland é um interesse.
Financiar Quickshell porque Quickshell virou peça fundamental do Omarchy é um interesse.
Não há nada errado nisso.
Precisamos apenas chamar pelo nome correto.
Isso não é caridade.
É investimento em infraestrutura compartilhada.
E justamente por isso a governança importa.
Licenças importam.
Upstream importa.
Diversidade de financiadores importa.
Terceiro:
o próprio sucesso pode estragar a brincadeira.
Projetos pequenos conseguem mudar rápido porque três pessoas conversam e fazem.
Com dezenas de milhares de usuários aparecem segurança, compatibilidade, suporte, plugin malicioso, hardware estranho, expectativa de estabilidade e aquela criatura terrível conhecida como:
usuário normal.
O Omarchy já está lidando com isso.
O projeto criou Core Team.
Marketplace.
Estrutura para plugins.
Meetups.
Fundação.
Tudo em pouco mais de um ano.
A pergunta passa a ser se ele conseguirá crescer sem transformar justamente aquela sensação de computador moldável em outro produto burocrático.
Não sei.
Eles também não sabem.
Estamos assistindo ao experimento.
E isso é justamente o divertido.
9. Conclusão: Linux precisa de mais gente colocando dinheiro na mesa
No final, o que mais me anima nesta história não é Omarchy.
Nem DHH.
Nem Hyprland.
Nem Quickshell.
Muito menos a possibilidade de finalmente escrever “2027: o ano do Linux no desktop” sem alguém rir da minha cara.
É outra coisa.
Linux ganhou mais uma fonte de dinheiro.
E, principalmente, uma fonte de dinheiro com um incentivo diferente.
Nas últimas duas décadas, grandes empresas tiveram papel fundamental em transformar Linux na infraestrutura monstruosamente competente que ele é hoje.
Isso não pode ser apagado da história apenas porque é divertido reclamar de corporação.
Red Hat ajudou.
IBM ajudou.
Intel ajudou.
Google ajudou.
SUSE ajudou.
Microsoft ajudou.
AMD ajudou.
Valve ajudou.
Centenas de empresas ajudaram.
E continuam ajudando.
O que eu não quero é que o futuro de Linux dependa somente de meia dúzia de empresas gigantes decidindo quais problemas possuem valor econômico suficiente para receber engenheiros.
Linux funciona melhor exatamente porque não possui um dono.
Então o financiamento também não deveria possuir.
Quero IBM colocando dinheiro.
Quero Valve colocando dinheiro.
Quero Red Hat colocando dinheiro.
Quero Framework colocando dinheiro.
Quero DHH colocando dinheiro.
Quero uma fundação obscura financiando aquele projeto minúsculo que todo mundo usa e ninguém sabe quem mantém.
Quero usuários pagando.
Quero empresas pagando.
Quero vários interesses competindo.
Porque interesses diferentes financiam problemas diferentes.
Uma empresa de cloud vai cuidar muito bem das coisas que fazem cloud funcionar.
Uma empresa de jogos tem motivo para fazer GPU e jogos funcionarem.
Uma empresa de hardware tem motivo para fazer o notebook suspender direito.
E agora apareceu uma turma dizendo:
“queremos que usar um computador Linux seja divertido.”
Coloquem dinheiro nisso também.
É saudável.
Não porque DHH vai salvar Linux.
Linux não precisa de salvador.
E talvez esse seja justamente o ponto.
Quanto mais gente com dinheiro, código, ideias e interesses diferentes entrar no ecossistema, menos Linux precisa ser salvo por alguém.
Talvez Omarchy desapareça daqui a cinco anos.
Talvez vire uma das grandes distribuições.
Talvez DHH canse e resolva construir um sistema operacional para torradeira.
Não faço ideia.
Mas Hyprland financiado continua existindo.
Quickshell financiado continua existindo.
Código publicado continua podendo ser usado.
Conhecimento fica.
Contribuições upstream ficam.
Outras pessoas copiam as ideias.
Outras distribuições melhoram.
E o ecossistema avança mais um pouco.
Então não.
Provavelmente US$ 10 milhões não compram o ano do Linux no desktop.
Mas podem comprar alguns anos de trabalho de gente muito competente.
E olhando para a história do software livre, talvez isso seja bem mais útil.
Durante muito tempo perguntamos:
“quando as grandes empresas vão levar Linux desktop a sério?”
Talvez a pergunta melhor seja:
por que deveríamos esperar apenas por elas?
Se DHH, Tobi Lütke, Michael Dell, Patrick Collison, Jack Dorsey e mais um punhado de gente querem colocar milhões para descobrir até onde isso pode chegar, ótimo.
Que apareçam outros.
Que financiem KDE.
GNOME.
Wayland.
XLibre.
Drivers.
Aplicações.
Toolkits.
Projetos pequenos.
Projetos grandes.
Coisas que eu gosto.
Coisas que eu acho uma porcaria.
Essa é justamente a vantagem.
Linux não precisa de um patrocinador. Precisa de muitos.
Se esses US$ 10 milhões servirem para puxar mais gente para a mesa, talvez a Omacom faça algo muito mais importante do que transformar Omarchy em uma grande distribuição.
Pode ajudar a provar que desktop Linux também merece investimento sério.
E isso beneficia até este velho teimoso aqui que continua usando Artix, i3 e Xorg e provavelmente vai olhar para tudo isso e pensar:
“legal”.
Antes de voltar a perder três horas configurando alguma coisa que já vinha pronta no Omarchy.